Se a vida te der limões...
Contém spoilers!!!!
Apesar de levar o nome do conto, a série não o segue à risca, muito pelo contrário, Mike Flanagan traz Poe para os nossos dias e utiliza a premissa da série como base para adaptar outros contos do mesmo autor que, talvez, jamais seriam se não fosse dessa forma.
Esse mosaico sombrio é positivo, na minha opinião, porque dá liberdade criativa ao diretor sem perder a essência. Temos, por exemplo, personagens que levam nomes de poemas de Poe e episódios inteiros baseados em outros contos!
Não se limitando somente ao que está dentro da série, os próprios nomes dos episódios partem de outras obras, segue a lista:
Ep. 2: A Máscara da Morte Rubra (Prospero).
Ep. 3: O Assassinato na Rua Morgue (Camille).
Ep. 4: O Gato Preto (Napoleon).
Ep. 5: O Coração Delator (Victorine).
Ep. 6: O Escaravelho de Ouro (Tamerlane).
Ep. 7: O Poço e o Pêndulo (Frederick).
Ep. 8: O Corvo (Verna).
* O primeiro episódio, 'Meia-noite que apavora' ou 'Midnight Dreary', não é o título de um conto, mas sim a primeira frase do conto de Edgar Allan Poe, 'O Corvo'.
Em cada um desses episódios morre um filho de Roderick Usher, sendo esse, o personagem principal junto com sua irmã gêmea Madeline.
O Monólogo de Madeline nos mostra que quem está no poder não quer 'mudar o mundo' e sim continuar no topo, não importa quantas vezes o mundo mude. Ela reflete também a respeito da hipocrisia popular que estão 'putos' com eles por terem criado algo que as pessoas querem e ter deixado disponível, mas, assim como ela mesma fala, 'se você não quer, não compre!'.
Continuando, ela diz, de forma bem tranquila, que as pessoas querem uma refeição barata em cinco minutos e depois reclamam quando ela é feita 'de merda e plástico'. É assustador porque, em partes, ela pode estar certa! O terror maior exposto por esse discurso não está no sobrenatural e sim na natureza humana.
Os que estão no topo querem se manter no topo para sempre e os que estão na base os colocam lá com seu consumismo barato e desenfreado.
'O Mc'Donalds venderia salada o dia inteiro se fosse isso o que as pessoas quisessem, está disponível, mas ninguém compra!' Madeline Usher.
Será que ela está delirando... ou só dizendo o que todos nós já sabemos, mas não admitimos?
Outro momento marcante é a metáfora dos limões de Roderick!
Roderick usa algo tão simples como limões para falar de capitalismo. Quando algo, mesmo que pareça irrelevante, entra no jogo do lucro, vira um absurdo! E ele não fala de forma filosófica. De forma bem simples e direta, ele expõe que o sistema só se importa com o que dá lucro.
'se a vida te der limões... faça uma limonada?'
É chocante quando você percebe que o terror da série está intimamente ligado à natureza humana. Mike Flanagan toca na ferida dos EUA, mas não só na deles, quando fala da epidemia dos opioides. Essa epidemia é real e está acontecendo agora mesmo! A série faz uma crítica exemplificando com maestria que, no capitalismo, quem está no topo lucra, os que estão na base pagam o preço e, às vezes, com a própria vida.
Quando decidi escrever sobre 'A Queda da Casa de Usher', decidi fazer isso com spoiler, pois, não espero que nenhum de vocês vá assistir (tem na Netflix). O mundo moldado ao Poe e as mortes criativas me cativaram, mas eu entendo que não é todo mundo que gosta disso!
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| Verna, a entidade que assombra os Usher |
Ainda assim quis trazer para vocês os temas que a série aborda: A falta de sensibilidade de quem está no topo e a hipocrisia de quem está na base. Flanagan usa o universo de Poe para mostrar que ainda precisamos de histórias de terror para refletir sobre temas que, por algum motivo, não queremos.
Poe escreveu sobre o fim de uma casa; Flanagan escreve sobre o fim de um império e, talvez, sobre o fim de todos nós.
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| Até a próxima!! |




Valeu a pena cada spoiler, uma analise critica e muito bem feita do filme. Eu já li o conto do Gato Preto, e seu olhar sobre esse filme, trouxe toda a essência do autor. Espero que um dia esteja inspirado para comentar sobre o conto que citei, adoraria saber sua opinião!
ResponderExcluirEssa série é sensacional! Principalmente a visceralidade das mortes é impressionante. Parabéns pela análise!
ResponderExcluirInclusive, gostaria muito de ver uma análise sua sobre "THEM", uma série extremamente indigesta que toca em diversos pontos interessantes!